Sala Travessia
Travessia nasce do encontro entre memória, ferida e escuta. A série investiga as marcas invisíveis deixadas pela infância, dores que muitas vezes permanecem adormecidas no inconsciente, mas continuam reverberando silenciosamente na vida adulta através dos afetos, medos, ausências, mecanismos de defesa e formas de se relacionar consigo e com o outro.
As obras apresentam a figura recorrente de uma menina. Embora parta de uma experiência íntima e autobiográfica, essa personagem não pertence apenas à artista: ela se torna símbolo coletivo. É a criança ferida que existe em muitos de nós. A criança que desejava ser acolhida, escutada, protegida, validada. A criança que aprendeu a sobreviver antes mesmo de compreender a própria dor.
Pintadas sobre papelão, material frágil, vulnerável, as obras carregam uma escolha simbólica fundamental. O suporte torna-se extensão da própria temática: assim como o papelão dobra, rasga, absorve marcas e desgastes, também a infância absorve palavras, silêncios, violências emocionais e ausências que moldam subjetividades.
Ao longo da série, surgem imagens de choro, carência afetiva, apego a brinquedos, necessidade de abraço, escuta e pertencimento. A figura adulta que dialoga com sua própria criança interior, propondo um reencontro simbólico entre passado e presente. Palavras e símbolos visuais tratam a ressignificação, porque a série Travessia não se limita à denúncia da dor: ela também fala sobre reconstrução.
Os símbolos espalhados pelas pinturas funcionam como extensões do inconsciente. São metáforas visuais que convidam o espectador não apenas a observar a obra, mas a atravessá-la emocionalmente. Cada elemento propõe camadas de leitura sobre memória, trauma, afeto, proteção, silenciamento e cura.
A arte aparece aqui como possibilidade de elaboração. Não como solução simplista para o sofrimento, mas como espaço de enfrentamento, consciência e ressignificação. O fazer artístico transforma-se em travessia: um caminho entre a dor e a reconstrução do sentido. Ao olhar para essa menina, somos convidados a olhar para dentro de nós mesmos e reconhecer aquilo que ainda necessita de cuidado.
Mais do que falar sobre infância, Travessia questiona quais adultos estamos nos tornando quando ignoramos nossas próprias feridas. A série propõe um gesto de humanização: cuidar da criança interior para interromper ciclos de violência emocional, abandono e endurecimento afetivo. Porque talvez existam infâncias que nunca terminaram, apenas aprenderam a se esconder dentro de corpos adultos.
Nesta série, a pintura não busca respostas definitivas. Ela oferece presença, escuta e possibilidade de encontro. Um convite para lembrar que acolher a própria dor também pode ser um ato de transformação coletiva.